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Caçada de mocó

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Itamaury Teles

Fui ao Rebentão dos Ferros novamente com o amigo Nivaldo Magalhães Neves, no final da década de 80. Gostava de ir ali, por duas razões: é fazenda dos meus parentes “Viriatos” e era onde me encontrava com Zé Ferreira, para um dedo de prosa.
Em data anterior, ele havia me prometido um mocó, cuja carne eu desconhecia, mas sempre desconversava quando eu o cobrava pela caça exótica.
- Não pude ir, moço. Num tive tempo. Apertô lá a limpa do fejão, a planta e agora a época tá boa, mas num pude ir ainda. Era pra ir hoje, mas num deu porque eu tava esperano um sobrinho meu aí hoje. Como de fato ele num pôde vim. Diz que a muié tá doente, tá no hosprital, tomou um tombo. Arrumô um distravio lá. Mandô um recado. Não pude ir mas se eu matá, o dia que eu matá ou eu saio por lá ou eu aviso ocê.
Mas como eu sabia que estava se esquivando, arranjando sempre uma desculpa, o ajudei como pude em seus argumentos, dizendo-lhe, a propósito dos mocós, que naquela época deveriam estar todos muitos pequenos. Ele gostava e arrematava:
- É, tá tudo fiote. Agora é só bichim piquinim. O dia que nós foi naquela serra, que nós chama Boquerão, daqui lá tem uma légua e tanto, é só mata, nós viu 14, mas tudo miudinho. O mocó é a mesma nação da cutia. É da mesma nação. Mocó grande dá até 3 quilos, 4. Agora, é veiaco. Tem que ficá na ispera. Cê chegô na lapa onde eles mora, cê precura ficá contra o vento que aquilo tem um faro doidio, moço. É pió que viado. Pió do que mateiro. Mateiro é o bicho mais veiaco. Mas cê fica contra o vento e caça a pusição que dá pra matá ele... Eu tem matado. Já matei aqui um mocó de 3 quilo. Era desse tamanho. Maior que uma cutia. Era mocó véio. Agora, mocozinho de quilo e meio, um quilo...
Aí, eu o interrompia, para saber da qualidade da carne do mocó. E ele, professoral, continuava:
- É a premera carne. Tem toda vitamina o mocó. Apenas que até o miolo da cabeça do mocó é remédio. Serve pra quem tem juízo fraco, pra mode aumentar. Põe pra fritá, fica a gordura da cor da camisa sua, com licença, alvinha, mas fininha. Agora, põe no vidro que é um santo remédio. Agora a veva do mocó é o premero remédio pra quem tá pra baxo... É tomá e o pontero sobe. Mas tem que sabê a quantidade, porque se bebê e passá da quantidade, aí num desce mais...
E finalizando aquela prosa boa, a meu pedido, deu a receita de como preparar a “estrovenga” do mocó:
- Tem que fazê o pó. Põe no café, na comida. Não hai poblema. Mas tem a quantidade. Pouquinha. Mais ou meno um centímetro. Cê pode tomá umas duas ou três vez até equilibrá. Equilibrô, parô. Não pode tomá mais. O véio aqui conhece do trem...
Assim era Zé Ferreira, o filósofo do Rebentão dos Ferros.

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Comentários  

 
0 #3 ItamauryTeles 01-10-2013 16:34
Pode não ter em Jequitaí, meu caro Gérson. Mas no Rebentão dos Ferros, segundo o Zé Ferreira, mocó de 1 quilo é "fiote". Vi mocós enormes na Ilha de Fernando de Noronha. Tenho fotos...
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0 #2 Gerson Duarte 01-10-2013 09:03
Parabéns, por mais um engraçado texto. Apenas para esclarecer - náo tem mocó com mais de 1 kg. Agora, o pó do vergalho levanta qualquer estrovenga, é igual um tal de quatí.
Um grande abraço.
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0 #1 Damião Cordeiro 01-10-2013 00:22
Lendo esta oralidade alembrei-me do conto roseano "O Meu Tio Yauaretê", nesse, o personagem-narrador fala sobre caçada de onça. Tive o privilégio de sentir o grande PAULO AUTRAN interpretando esse maravilhoso texto.Era ver uma onça....

Os mocós também viram onças - sobem inté em aroeiras. já vi. Não sou caçador. Bom, só de causo.

Damião Cordeiro - O Poeta do Acaso.
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