Calcinha Jatiboca

Itamaury Teles (*)

Poderosos fetiches capazes de instigar a fértil imaginação masculina, as calcinhas femininas sempre ativaram a libido e evocaram pensamentos de alcova.

Desde a época das prosaicas calcinhas estilo V-8,  até as modernas fios-dentais, que ocultam apenas o essencial – logo o essencial, que é invisível para os olhos, segundo Saint Exupéry - os estilistas se utilizam de técnicas infalíveis para sensibilizar e motivar os que terão a nobre missão de desvesti-las...

Essa peça íntima feminina virou até objeto de coleção. O falecido cantor Wando, deixou um incrível legado de 15 mil calcinhas, atiradas pelas fãs sobre o palco durante seus shows de música romântica...

 

Em carnaval recente, houve uma passista da Mangueira que a substituiu por um minúsculo pedaço de emplasto Sabiá. Não faz muito tempo, a falta da calcinha também virou notícia, principalmente porque havia ao lado da atriz com vulva desnuda um topetudo e saudoso presidente da República. O mais recente episódio envolveu “abundante” e famosa atriz global que, surpreendida por uma corrente de vento ascendente, protagonizou cena à moda da Marylin Monroe, porém sem a calcinha...

Mas o não uso do pequeno adorno feminino não é moda nova. Quando eu era menino, lá em Porteirinha, lembro-me de que as mulheres da zona rural muitas vezes não faziam uso dessa roupa íntima. Não por falta de pudor, mas por uma razão muito prática. Naquela época, a feira semanal na cidade era ponto de convergência de milhares de pessoas. Como não havia banheiros públicos, os homens se desapertavam pelas pontas de rua, em algum mangueiro próximo, protegidos pelo capim colonião. E as mulheres? Essas tinham de ir para a cidade com longos vestidos, mas sem qualquer peça por baixo. Isso facilitava sobremaneira, pois em necessidades fisiológicas líquidas – digamos assim – era preciso apenas abrir um pouco as pernas e ficar parada no meio da rua arenosa, proseando disfarçadamente com uma comadre. Depois, saíam como se nada tivesse acontecido, embora deixassem para trás uma “bilóia” úmida feita na areia...

Soube, por esses dias, de um caso de uma moça, também da zona rural, que se habituara a vestir-se apenas com calça comprida e sem calcinha. Um dia, necessitou usar vestido, para ir a um casamento. Como não possuía calcinha alguma, já que não a usava, apanhou um saco qualquer por ali disponível e com aquele tecido grosso fez sua primeira peça íntima. 

Indo pra cidade de ônibus, como se acostumara a sentar-se despreocupadamente, abriu as pernas e deixou à mostra a calcinha. Um caipira que seguia à frente não tirava os olhos do meio das pernas da moça. Até que ela reclamou: 

- O que é, nunca viu calcinha, não? 

E o matuto, meio sem graça, justificou:

– Já vi muitas, moça, mas escrito “ração pra pinto” é a premera...

Outro caso interessante aconteceu em Ponte Nova, terra do meu saudoso amigo Reinaldo Papagaio, da cachaça boa e da famosa Usina Jatiboca, que produzia um excelente açúcar. 

Havia por lá um maquinista da Vitória-Minas muito mulherengo. E muito esperto também, pois se utilizava de um estratagema perfeito para conseguir dinheiro extra.  Naquele tempo, era norma da empresa ferroviária multar o maquinista pelos atrasos nas chegadas da locomotiva ao seu destino. Mas, em contrapartida, o retardatário recebia remuneração bem maior pelas  horas extraordinárias trabalhadas em decorrência do atraso, resultando em sobra financeira. Assim, o maquinista bilontra se locupletava com atrasos deliberados, tão-somente para fazer caixa especial para atender aos dengos da amante.

Foi nessa época que surgiram no mercado as novíssimas calcinhas de nylon, que se tornaram o xodó das mulheres e custavam o olho da cara.   O maquinista, para agradar à amante, todo mês a presenteava com uma nova, de cor variada. Até que um dia, voltando para sua casa, em um bairro pobre, aconteceu algo que o fez mudar o estilo de vida.

Ao adentrar a casa, encontrou sua mulher, humilíssima, curvada para avivar a chama em um fogão a lenha, no nível do chão, mostrando a calcinha feita de pano de saco de açúcar, onde estava escrito, em letras vermelhas, “Usina Jatiboca”.

A partir de então, o maquinista, movido pelo remorso, nunca mais fez hora-extra, nem presenteou a antiga amante, que, desiludida, partiu para outros braços com seu belo estoque de calcinhas de nylon...

 

(*) Escritor e jornalista

 

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