Blue moons & Croissants

Itamaury Teles (*)

Muitos dos que lerem o título dessa crônica poderão ficar imaginando que salseiro pretendo fazer, colocando num mesmo balaio “blue moons” e “croissants”. 

Embora pareçam coisas díspares, têm muita afinidade entre si, pois ambos os termos se relacionam à lua, como veremos. 

O fato é que, de há muito, venho querendo escrever sobre as influências desse satélite natural sobre nós. Esse pensamento é recorrente, sempre que desponta no horizonte uma Lua Azul. E ela é muito mais bela quando nasce no sertão mineiro, na zona rural, por detrás da mata. Parece uma bola de fogo. Algo indescritível, de tanta boniteza, como gostava de dizer o cronista sertanejo João Valle Maurício, de saudosa memória.

 

De origem desconhecida,  o termo inglês “blue moon” surgiu para designar a segunda ocorrência de lua cheia em um mesmo mês. Lua Azul, assim, é a tradução literal usada por nós, colonizados por portugueses e  que moramos na parte de baixo do Equador.  

Mas a lua, nessas ocasiões relativamente raras – o  intervalo médio de ocorrência das "luas azuis", segundo os astrônomos,  é de 2 anos e 8 meses -, ao contrário do que sugere a expressão, não muda de cor. Ela sempre esteve associada a perigos e desvarios, além de ser considerada um acontecimento de muita força magnética  e poder espiritual. Como crêem os cultores do esoterismo, ocorrem profundas purificações emocionais quando do seu aparecimento.

Segundo a mitologia Celta, a Lua Azul favorece o contato com o reino encantado dos seres da natureza. Nessas oportunidades, as rainhas das fadas podem ser invocadas e, também, serem empreendidas viagens reais ou imaginárias para as colinas encantadas, onde moram os gnomos – o  chamado Povo Pequeno. 

Consta que o culto a esta Lua passou a ser reprimido por ser considerado uma exacerbação da simbologia lunar. Mesmo assim, permaneceu sua aura romântica e poética e a “blue moon” passou a ser associada à crença de que é propícia ao romance e ao encontro de parceiros, dando origem a inúmeras músicas (Blue Moon, you saw me standing alone/ Without a dream in my heart / Without a love of my own...) e poemas melancólicos ou esperançosos. 

Hoje, até cientistas mais ortodoxos acreditam na influência da lua em nossa vida quotidiana, desde o corte de árvores, passando pelo fluxo e refluxo das marés, até o nascimento de crianças (haveria muito mais na lua cheia, em conseqüência da maior retenção de líquidos nessa fase, que provocaria o rompimento das  bolsas pela pressão do amniótico em parturientes).

E onde entra o “croissant” nessa estória?  Bem, “croissant” é uma palavra francesa, que significa crescente, sendo utilizada também para se referir à lua quarto crescente. Daí porque o “croissant”, um pão característico de massa folhada,  tem formato de meia-lua, e na Argentina é conhecido como “medialuna”.  

Mas não quero falar aqui do pão – embora tenha feito essa associação há pouco tempo – e  sim dessa fase lunar que, faz mais de  30 anos, eu particularmente observo. Isso porque, em 1979, quando morava sozinho, em apartamento funcional em Brasília-DF, fui alertado, pela minha secretária doméstica sabatina, de que o ralo do meu banheiro estava, como na semana anterior, cheio de cabelo. E foi curta e grossa no seu vaticínio:

- O sr. vai  ficar careca logo, logo...

Diante daquela notícia nada alvissareira, busquei ajuda. Conversei aqui e ali com pessoas mais idosas - mas que  ainda ostentavam vastas cabeleiras -, e fui encontrar a solução para o problema junto a um colega de trabalho: Arlindo,  um  fascinado estudioso da influência da lua sobre nós. 

Como recebi a orientação de forma atenciosa e gratuita, faço o mesmo aqui e agora: passei a cortar o cabelo somente quando a lua se apresentasse na fase quarto crescente. Desde então, influenciado ou não pela lua, o certo  é que  meu cabelo parou de cair. E é de uma vitalidade a toda prova, exceto pelos fios encanecidos pelos janeiros... 

Como diria o Jack Palance, “believe it or not” - acredite se quiser... 

 

(*) Escritor e jornalista.

 

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