O PASSEIO DE KARLA CELENE E EDICLAR PELA HISTÓRIA DE BREJO DAS ALMAS

Maria Luiza Silveira Teles (*)

Karla Celene Campos lançará, em Brejo das Almas, no próximo sábado, a sua obra-prima. Acho que, sem medo de errar, com toda a experiência de uma vida de leitura e outros tantos anos como consultora editorial de uma das maiores editoras do mundo, posso afirmar que, no momento, Karla se consagra como a maior escritora do norte de Minas.

Seu livro, “Cadernos de Ediclar – Memórias de Brejo das Almas” é um romance memorialista em que ela mistura experiências de sua própria vida, da vida da família Silveira e outras pioneiras de Francisco Sá, com a história da cidade e os versos do poeta popular e repentista Ediclar, o Boca, que registrava, cotidianamente, tudo que acontecia naquela pequena cidade, perdida no sertão de Minas.

Embora pareça que o romance seja uma história local, na verdade, ele é universalista. É a história de qualquer lugarejo em qualquer lugar do planeta.

Dizer que Karla é a encarnação da sensibilidade, da poesia, do encanto, da alegria, da explosão da vida já é redundância e lugar-comum. Ela é uma artista completa que lida, com maestria, em vários campos da arte. Seu nome deveria ser Vida, pois ninguém encarna melhor do que ela todo o deslumbramento da Obra Divina! E, como, mestra em Literatura, ela bebe e sofre influência dos melhores autores.

 

O Tempo é o grande mistério com que se depara a escritora. Ele, como a Esfinge, a contempla, a encanta e a desafia. Como ela diz: “O tempo machuca, mas também cura. Atordoa, mas ensina. Fere, fragiliza, mas fortalece. Rouba, toma, tira, leva, mas consola. Traz o fim, mas também ensaia passos em direção a recomeços.”.

O Tempo, ah, o Tempo!... Ele a torce, a revira, a inspira, a leva a voos galáxios e interplanetários. O Mistério nos leva a filosofar, mas acaba por nos devorar...

A autora tem uma escrita poética, pois bem sabe de ventos e vivências, de explosões cromáticas, de sonhos e visões. Sua vida é um arco-íris e uma montanha-russa. E neles embarcamos com momentos de lágrimas e risos e as mais diversas emoções. Não conseguimos ler sua obra sem rir e chorar...

Na dança louca da vida e dos ventos de Brejo das Almas, Karla nos leva a um passeio cheio de emoções em que, com ela, ensaiamos os passos.

No Brejo, o vento uiva faminto e enlouquece de saudade e solidão... ”Com a fecundidade da romã, os dias estão sempre fecundando outros dias.”.

A História nos faz mergulhar na areia movediça da saudade e encharca a alma nesse pântano invasor.

Clio, a musa da história, e o tempo se ajuntam apressados num eterno caminhar e Karla e Ediclar a tudo registram com precisão. E nós vamos a passear pelos ventos e pela História, como ela diz, nos ermos dos pântanos e nos silêncios do além.

Karla-menina já dançava na escola de Samba, fundada por Ediclar. E, com a mesma alegria e elegância, dança hoje na memória, escrevendo uma belíssima história de cunho universal. Uma história que requereu anos de pesquisa e reflexão. E ela sabe que as lembranças são como “a fumaça que se lança de dentro da xícara e se dissolve no ar.” É preciso que alguém as registre para que não se percam e permaneçam como raízes que nos levam à robustez e pujança da vida.

Ela e Ediclar nos levam a meditar: “Quem sabe na eternidade está a razão de viver?”. Os dentes impiedosos do tempo cravam mordidas dolorosas em todos nós, levando-nos a beleza da juventude, os entes queridos, os momentos de alegria e de dor e até as coisas que se desfazem como pó. Entretanto, Karla deixa bem claro que sempre vale a pena viver e que é indispensável que alguém se encarregue de não se deixarem perder as lembranças de um povo na poeira do tempo.

Assim, juntamente com a poesia popular de Ediclar, cheia de beleza, nostalgia e filosofia, Karla deixa para a posteridade a história de Brejo das Almas que, como dizia o poeta, nunca sai de dentro de nós, mesmo que lá já não estejamos mais...

Tendo lá as minhas raízes paternas, a vida de luta de meus ancestrais, a obra me sensibilizou de maneira particular. Tenho muito a agradecer à esta autora tão especial e talentosa, orgulho de Montes Claros e Francisco Sá.

(*) Membro da Academia Montes-clarense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros.

 

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