RAQUEL MENDONÇA, A GUERREIRA DA CULTURA

Maria Luiza Silveira Teles (*) 

Eu a conheci menina. Era minha aluna de inglês no Colégio Tiradentes. Via nela o projeto de uma estrela, pois sua inteligência e dedicação apontavam para isso.

Já na Faculdade, fazendo parte do corpo de jurados para escolha do discurso de formatura, senti uma alegria e um orgulho especiais, quando pude ouvi-la discursar. Embora ainda tímida, introvertida, não tive dúvidas de que ela seria a oradora oficial, assim como não duvidei de seu futuro brilhante.

 

Entretanto, aqueles que permanecem no interior, mesmo os mais excepcionais talentos, não têm grandes oportunidades de se projetarem ao nível de seu potencial. No entanto, devemos agradecer por tantos terem permanecido entre nós, pois, senão, como nossa terra poderia progredir no terreno cultural?!

 

Graças a Deus, Raquel não partiu de sua terra natal. Embora mulher de vastos horizontes, trazendo em si o sonho do intangível e da transcendência, Raquel rendeu-se ao amor intenso por Montes Claros. E pela cultura de sua terra ela tem dedicado sua vida, seu suor e seu talento! A qualquer hora do dia e em qualquer tempo, podemos encontrá-la na Secretaria de Cultura lutando, leoninamente, pelo patrimônio histórico, artístico e cultural de nossa cidade, incentivando e buscando oportunidades para os artistas de qualquer área. Trabalha tanto pela cidade e pelos outros que acaba por se deixar de lado!...

 

 

Quando lancei o meu livro “As Sete Pontes”, obra que caiu no vestibular de 1986, não me esqueço nunca da extraordinária e belíssima apresentação que fez de uma história tão simples. Percebi, de imediato, que Raquel era uma mulher forte, poetisa feita de epifanias, asas e sonhos!

 

Essa mulher tem defendido, ainda, e de maneira bravia, os direitos femininos. Tem lançado seu grito contra a cotidiana violência contra as mulheres que acontece, tantas vezes, no silêncio e na obscuridade. Esse grito seu aparece nas centenas de crônicas que ela vem publicando no Jornal de Notícias, muitas das quais com grande repercussão, consideradas extraordinárias por uns, "polêmicas", "radicais" por outros. Sabemos, porém, que pesadas são as pancadas que muitas mulheres sofrem no dia a dia, em ambiente doméstico, com muitas delas sendo levadas à invalidez ou à morte! São essas mulheres que ela defende bravamente!...

 

Trabalhando arduamente na Secretaria, em revistas e Jornais - pois sempre foi jornalista - e mesmo em salas de aula, Raquel tem demonstrado sua vocação para a indignação diante da barbárie que espezinha o ser humano. Não consigo compreender como, durante tantas gestões, ela nunca chegou ao cargo de Secretária Municipal da Cultura, apenas Adjunta. Seria puro mérito! Enfim, vá compreender os critérios do mundo político!...

 

Há nela, além de profundo compromisso com a causa cultural, aquela bendita paixão que se arrepia diante da grandeza das pequenas coisas e que impulsiona o mundo para frente. Nas pelejas agridoces do cotidiano, nos desafios entre o velho e o novo, rebentam nela os lampejos da renovação. A mulher que nasceu para brilhar prefere manter-se nos bastidores, nas coxias, mas sempre responsável por grandes feitos. Dou graças por ter o privilégio de ser amiga-irmã dessa extraordinária mulher. Mulher que pegou nas mãos as rédeas de seu destino!

 

No Jornal de Notícias, criou e editou a página cultural "Arte & Fatos", por quase dez anos, hoje virtual, criada e editada por sua filha, a artista plástica e Designer Ana Bárbara Mendonça. Quando ainda estava no Jornal do Norte e ali criara a página "Cultura e Cia", teve contato com Carlos Drummond de Andrade, porque ousara reescrever o seu popular poema "José", entre outros, a ele os enviando, através do Jornal Estado de Minas, onde o grande poeta brasileiro publicava crônica semanal. Drummond lhe respondeu e agradeceu com grande generosidade nas palavras!... A partir daí se comunicaram por alguns anos em preciosas missivas, que tive a feliz oportunidade de ler, sabendo que poucas - e outros tantos escritos, como poemas seus e de outros inéditos... - escaparam de chuvas inesperadas na década de 80, conforme me relatou há bom tempo. E ela não se esquece do que ele lhe respondeu, quando foi convidado para a sua posse na Academia Montes-clarense de Letras (ela tinha apenas 23 anos e foi indicada pelo  meu inesquecível e saudoso - notável sonetista - tio Olintho Alves da Silveira... A sua apresentação foi feita pela acadêmica e grande escritora Madeleine Velloso Rebello). Drummond felicitou-a e entendeu a sua entrada na Academia como uma “auto- afirmação da mulher brasileira”, embora  fosse avesso a Academias de Letras. À própria ABL, deixara isso claro em crônica publicada pelo Estado de Minas e não estava sozinho nisso. Sabemos dos grandes que rejeitaram também a ABL. Provavelmente, talentos humildes como ele e que dispensam honrarias.

 

Gostaria, aqui, de lembrar alguns versos que mostram o talento excepcional dessa mulher ímpar falando de um de nossos maiores artistas, o saudoso Ray Colares:

 

“Raio de luz fulgurante 

Mais que tudo, desafiante

Nas trevas da infinita imaginação

Tomada de cores, caminhos e conflitos

Onde a dor de existir e desistir, talvez

Fosse detalhe sem maior importância.

 

De genialidade desconcertante e torrencial

Varava chuvas, sombras, madrugadas

Banhado de luz, palavras e mais palavras

Nas prosas e poesias sem fim em praças e bares tantos

E tontos de tanta, tamanha inquietude, inspiração profunda!

 

A dor aguda de viver tão livremente

Não doía indefinidamente

E havia momentos de ser feliz como criança...”

 

Raquel mostra aqui não apenas o reconhecimento da sensibilidade daquele que povoou o mundo com suas cores, formas e palavras, mas a sua própria capacidade de perceber, em versos, a grandeza do imaginário que reflete a beleza e a crueldade do mundo.

 

Acredito que Montes Claros é, hoje, uma cidade muito voltada para a praticidade do desenvolvimento de riquezas materiais e esquecida de sua riqueza imaterial que, muitas vezes, se esconde em sala de um antigo casarão.

 

A Montes Claros do passado era uma comunidade voltada para o altruísmo. As pessoas todas se conheciam e reconheciam e admiravam os grandes talentos da terra que tanto nos engrandeciam. Hoje, esses talentos se perdem numa metrópole fria e descaracterizada, que ainda não encontrou sua identidade.

 

Por isso a minha decisão de registrar para a História esses grandes talentos que, mesmo correndo o tempo todo de câmeras e holofotes, tecem a grandeza de nosso futuro. 

 

Assim vive Raquel, a guerreira da Cultura, guardando os tesouros do passado e tecendo a grandeza do futuro!...

 

* Presidente da Academia Montes-clarense de Letras

 

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