A PEDRA DO GÊNERO

Damião Cordeiro

“E o Paraíso tudo azul sem pecado e sem juízo dois passarinhos cantam pra esse amor” – 1985 – Baby/Pepeu

          Às luxúrias fogosas de dois tico-ticões do mesmo gênero; (ressalto que eles não batem as passarinhas por terem a liberdade pra essa opção degustativa, não); deus Eros deu asa e colher chá de volúpias-bolinhas-na-pele. Então, sem as decretadas penas, bem assim, bico com bico, esses dois bicudos por mais que botam o ato em prática, não apagam fartos incêndios de desejos recíprocos e verdadeiros.

EM CANTO DE SEREIA

 Damião Cordeiro

“É doce morrer no mar...” – 1941 – Dorival Caymmi/Jorge Amado    

 

          É um ofício, assina. (Para quem tem o ofício de delirador, delira.)

 

          Óh indefinível mulher, sou servo de teu mavioso canto que remove minha razão, que faz com que ignore as corredeiras, e as pedras revestidas de limos, juntamente com os seus escorregos. Óh Senhora-Dama-Bailarina, incondicionalmente, sou servo de teus movediços engodos.

ASSIM VOU...

Damião Cordeiro 

“Voar voar/Subir subir/Ir por onde for” – 1984 – Byafra 

          Anjo, a fé renova montanhas. Sei das rebuliçosas corredeiras. Sei das pedras revestidas de limos; dos escorregos. Eu acredito em ti. Je suis I’instrument de la parole. Este embrião de bem-querer que batuca cá dentro em mim provoca aprazíveis sensações de serem sentidas sentidos por sentidos.

SUM EGO VERBIS SENO

Damião Cordeiro  

"E o verbo divino se fez carne..." (JO 1:14)

          Óh Pai, kyrie eleison, tens fabricado muitas muitas oficinas. Veio à minha estufa mental, bolinho de barro. O mundo, huumm... pacato Paraíso:bolinho de barro, trabalho nenhum. Mas, eis que surge na fábrica do Pai, Adão. 

QUARTOS DOS DESEJOS

Damião Cordeiro  

Um favo de mel na boca/Um torrão de sal na anca/Roubaram para pele o calor dos animais” – 1998 – Madan  

          Tardezinha. No quase fechar da cortina do dia, uma réstia de sol dependura-se na parede do aposento de sinhá-mulher. Sinhá-mulher captura essa réstia de sol e assoma umas desdosáveis pitadas de desejos e tempera a sua carne. Preparo: a cama posta; o convidado faminto. Sobre esses, mais sinhá-mulher, a noite desce.